Russos estão recorrendo a uma combinação de VPNs, dois celulares e aplicativos alternativos para contornar o maior aperto digital já imposto pelo Kremlin sob o governo de Vladimir Putin. Em um café no centro de Moscou, uma designer de interiores de 41 anos alterna entre uma rede privada virtual para usar o WhatsApp e o desligamento da ferramenta para comprar passagens na Russian Railways. Ela também carrega um segundo telefone para se comunicar com clientes pelo aplicativo estatal MAX. A rotina, descrita como um enorme incômodo, tornou-se cada vez mais comum entre os cidadãos que precisam navegar por um ambiente digital repleto de bloqueios e restrições.
Por que o governo russo intensificou o controle da internet?
Segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, as medidas são necessárias em um momento em que a Rússia enfrenta o que o governo classifica como um confronto existencial com o Ocidente por causa da Ucrânia. As autoridades têm promovido a chamada soberania digital, incentivando o uso de alternativas nacionais a aplicativos e sites estrangeiros. O Serviço Federal de Segurança (FSB), sucessor da KGB, passou a ordenar que operadoras de telecomunicações desliguem a internet móvel por dias em diversas regiões, alegando que drones ucranianos podem usá-la para navegação. Já o regulador de comunicações Roskomnadzor bloqueia ou desacelera o acesso a uma lista crescente de plataformas, acusadas de abrigar conteúdo ilegal ou extremista.
Queda na popularidade de Putin e o descontentamento com as restrições
A frustração com o controle digital, combinada ao aumento de preços, elevação de impostos e cansaço com a guerra, tem contribuído para a queda nos índices de aprovação de Putin. De acordo com o instituto estatal VTsIOM, a aprovação do presidente caiu de 75,1% em fevereiro para 65,6% em abril, o menor nível desde o início do conflito generalizado na Ucrânia em 2022. Atualmente, os números se recuperaram ligeiramente para quase 67%. As interrupções no acesso à internet, que afetaram bancos, transportes e comércio eletrônico, irritaram a população exatamente quando o país se prepara para uma eleição parlamentar em setembro. Até mesmo blogueiros e influenciadores que normalmente evitam política criticaram as medidas.
Como os russos estão driblando o bloqueio de aplicativos?
O uso de VPNs disparou na Rússia. Dados da consultoria Digital Budget, citados pelo jornal Kommersant, mostram que em março houve 9,2 milhões de downloads dos cinco serviços de VPN mais populares na Google Play Store, um número 14 vezes maior do que no mesmo mês do ano anterior. Sarkis Darbinyan, ativista russo pela liberdade na internet baseado em Lisboa e classificado como agente estrangeiro por Moscou, afirmou nunca ter visto uma taxa de adoção tão alta. Muitos usuários também recorrem a um segundo telefone para isolar o aplicativo MAX, de propriedade da gigante de tecnologia VK, que o governo promove como alternativa aos serviços estrangeiros. A designer Irina, que pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome devido à sensibilidade do assunto, descreve o ritual de ligar e desligar VPNs e alternar entre mensageiros e telefones como uma necessidade diária.
Qual o papel do aplicativo MAX na estratégia de soberania digital?
O MAX, lançado no ano passado, já tem mais de 85 milhões de usuários diários, segundo sua proprietária VK em maio. As autoridades vêm pressionando os russos a adotar a plataforma como parte da campanha por soberania digital, mas muitos desconfiam. Críticos do Kremlin e algumas empresas de tecnologia ocidentais alertam que o MAX pode ser usado para monitorar os cidadãos, acusação que a VK nega. Para se sentir mais segura, Irina mantém o aplicativo em um aparelho separado. Fontes próximas ao Kremlin relataram à Reuters que mesmo funcionários públicos leais usam VPNs e carregam múltiplos telefones, e alguns chegam a remover o microfone e a câmera dos dispositivos com o MAX instalado, temendo que o FSB possa acessá-los.
O uso de VPN é ilegal na Rússia?
De acordo com a reportagem, utilizar VPNs não é ilegal no país. No entanto, o Roskomnadzor restringiu o acesso a centenas desses serviços, estabelecendo um jogo de gato e rato com os usuários, que precisam baixar novas ferramentas constantemente para acessar o conteúdo desejado. Em abril, órgãos governamentais, bancos e grandes varejistas online, seguindo instruções do regulador, começaram a impedir que pessoas com VPN ativada acessassem seus sites. A medida coincidiu com uma queda de 10% no tráfego do Wildberries, o equivalente russo da Amazon, segundo a Digital Budget, que observou que muitos usuários simplesmente perdem o interesse em comprar quando não conseguem abrir a página do produto.
Como as interrupções afetam a economia e o comércio eletrônico?
O impacto vai além do incômodo pessoal. Quando aplicativos de navegação pararam de funcionar em Moscou em março, os entregadores do Flowwow, um mercado online de flores e presentes, tiveram que usar o Wi-Fi dos vendedores para baixar rotas até os clientes, contou Yuri Semichastnov, chefe de logística do site. As vendas de mapas de papel mais que dobraram na capital durante o apagão, de acordo com dados do Wildberries. A interrupção de quase três semanas em Moscou também irritou burocratas do alto escalão que dependem da internet e do Telegram para angariar votos para o partido governista Rússia Unida, segundo duas fontes próximas ao Kremlin e analistas. Tatiana Stanovaya, pesquisadora sênior do Centro Carnegie Rússia Eurásia, escreveu em abril que a questão não é se o regime garantirá o resultado desejado, mas se o processo eleitoral será tranquilo.
Perguntas Frequentes
É seguro usar o aplicativo MAX?
Críticos do Kremlin e algumas empresas de tecnologia ocidentais advertem que o MAX pode ser usado para rastrear usuários, mas a VK, sua proprietária, nega veementemente. Muitos russos preferem manter o app isolado em um segundo telefone por precaução, e alguns funcionários públicos chegam a remover microfones e câmeras dos dispositivos onde o MAX está instalado.
As restrições à internet vão acabar?
O Kremlin suavizou o discurso nas últimas semanas e garantiu que os desligamentos da internet móvel são temporários. Um plano para cobrar dos clientes um valor extra por usar mais de 15 gigabytes de dados estrangeiros por mês foi adiado em maio, e a imprensa russa informou que a exigência, que tem como alvo usuários de VPN, provavelmente será introduzida após a eleição. Putin também pediu ao governo e ao FSB que trabalhem juntos para garantir que serviços críticos, como plataformas de saúde e sistemas de pagamento online, permaneçam operacionais.



