Ela ficou famosa por transformar palavras em imagens geradas por inteligência artificial. Agora, a Midjourney quer transformar sons em algo muito mais profundo: uma radiografia completa do seu corpo humano — sem radiação, sem agulhas, sem hospitais. Em um anúncio que sacudiu o mundo da tecnologia e da medicina no dia 18 de junho de 2026, a empresa californiana revelou ao mundo o Midjourney Scanner, um aparelho de ultrassom de corpo inteiro capaz de, segundo a companhia, realizar uma varredura completa em apenas 60 segundos pelo custo de alguns dólares. A novidade vem acompanhada do lançamento de uma nova divisão corporativa batizada de Midjourney Medical — e de ambições que vão muito além das telas de computador.
A jogada surpreendeu o mercado. Afinal, a Midjourney era conhecida exclusivamente por seu serviço de geração de imagens por assinatura, com planos que variavam entre US$ 10 e US$ 120 por mês. A empresa não tem investidores externos e se autodescreve como um laboratório de pesquisa financiado pela própria comunidade de usuários. Agora, ela aponta suas câmeras — ou melhor, seus transdutores ultrassônicos — para o interior do corpo humano.
O que é o Midjourney Scanner e como ele funciona
O Midjourney Scanner é um dispositivo de tomografia computadorizada por ultrassom, ou USCT (do inglês Ultrasound Computed Tomography). A tecnologia, que existe em forma de pesquisa desde os anos 1950, consiste em cercar o corpo de uma pessoa com um anel de transdutores ultrassônicos submersos em água, emitindo ondas sonoras de todos os ângulos simultaneamente. Os ecos captados são então processados por um sistema computacional poderoso que reconstrói um volume tridimensional completo do interior do corpo — músculos, tecidos, órgãos, gordura e estruturas ósseas.
A experiência foi desenhada para ser o oposto de uma visita ao hospital. De acordo com o blog oficial da Midjourney, o usuário sobe em uma plataforma motorizada que desce lentamente a uma velocidade de aproximadamente 5 centímetros por segundo dentro de uma piscina rasa de água morna. À medida que o corpo atravessa o anel de transdutores, pulsos ultrassônicos são disparados de todos os ângulos e seus ecos registrados. O resultado, segundo a empresa, é um mapa 3D do corpo com resolução sub-milimétrica — semelhante ao que um exame de ressonância magnética (MRI) produziria, mas em fração do tempo e sem campos magnéticos ou radiação ionizante.
O CEO da empresa, David Holz, foi enfático no evento de lançamento em São Francisco: "Nenhum dispositivo como este havia sido construído antes." Ele afirmou que o scanner é, em diversos aspectos, superior às máquinas de ressonância magnética convencionais. Contudo, é importante destacar que nenhuma dessas afirmações foi verificada de forma independente por instituições médicas ou regulatórias até o momento da publicação desta reportagem.
A parceria com a Butterfly Network: o chip que torna tudo possível
O coração tecnológico do Midjourney Scanner não foi criado do zero pela empresa. Em novembro de 2025, a Midjourney firmou um acordo de co-desenvolvimento e licenciamento exclusivo com a Butterfly Network (NYSE: BFLY), uma empresa pioneira em dispositivos de ultrassom baseados em semicondutores. De acordo com comunicado oficial da Butterfly Network, o protótipo atual incorpora 40 módulos de imagem Ultrasound-on-Chip™ por sistema.
O que torna esses chips revolucionários é a substituição dos tradicionais cristais piezoelétricos — os elementos acústicos usados em aparelhos de ultrassom convencionais — por transdutores ultrassônicos microfabricados capacitativos (CMUTs, na sigla em inglês), construídos diretamente sobre chips de silício CMOS, os mesmos usados para fabricar processadores de computador. Cada chip contém até 9.000 elementos CMUT individuais, cada um capaz de emitir e receber ondas sonoras em frequências programáveis de 1 a 12 megahertz.
O contrato entre a Midjourney e a Butterfly Network, divulgado em formulário 8-K junto à SEC (a comissão de valores mobiliários americana), prevê um pagamento inicial de US$ 15 milhões, mais US$ 10 milhões anuais em taxas de licenciamento ao longo de cinco anos, com pagamentos adicionais por marcos atingidos e participação em receitas — totalizando até US$ 74 milhões.
Na configuração atual, o scanner utiliza aproximadamente 8.960 canais de transdutores ativos e cerca de 2 petaflops de poder computacional para processar os dados gerados. O sistema produz cerca de 17 gigabytes de dados acústicos brutos por segundo durante um exame — equivalente a mais de 500 horas de vídeo em alta definição por segundo de varredura.
60 segundos ou 20 minutos? A diferença entre promessa e realidade
Aqui mora uma das distinções mais importantes que qualquer jornalista de tecnologia responsável precisa fazer ao cobrir este lançamento. O scanner que a Midjourney exibiu ao mundo não leva 60 segundos. O protótipo atual demora aproximadamente 20 minutos por exame e, até a data deste anúncio, havia sido usado em apenas cerca de uma dúzia de pessoas.
O gargalo é técnico: a velocidade de transferência de dados entre os transdutores e o cluster de processamento computacional ainda não é rápida o suficiente para completar a reconstrução da imagem em 60 segundos. Segundo análise do TechTimes, a empresa ainda não dispõe da largura de banda necessária para atingir esse objetivo com o hardware atual.
O próprio David Holz admitiu no evento de lançamento que a empresa "ainda não usa nenhuma IA no processo de imagem — apenas hardware e software muito avançados." Isso é digno de nota, especialmente vindo de uma companhia que construiu sua reputação inteiramente sobre inteligência artificial generativa.
O roadmap tecnológico da Midjourney contempla três gerações de equipamento:
| Geração | Prazo estimado | Principais avanços |
|---|---|---|
| 1ª geração (atual) | 2026 | Protótipo com 40 chips Butterfly, ~20 min por exame, sem clearance FDA diagnóstico |
| 2ª geração | 2027–2028 | Design de hardware atualizado, maior número de módulos, redução do tempo de exame |
| 3ª geração | 2028+ | Silicon personalizado fabricado pela própria Midjourney, qualidade de imagem "de outra categoria", busca por aprovação diagnóstica da FDA |
A estratégia do Spa: medicina embrulhada em bem-estar
A Midjourney não planeja entrar nos hospitais — ao menos não ainda. Sua estratégia de entrada no mercado é curiosa, audaciosa e, de certa forma, genial do ponto de vista regulatório: a empresa vai instalar seus scanners em spas de bem-estar.
De acordo com o PetaPixel, a empresa planeja abrir sua primeira unidade na Union Square, em São Francisco, com previsão para o final de 2027. O espaço terá cerca de 2.300 metros quadrados e abrigará 10 scanners ao lado de banheiras de hidromassagem, saunas e tanques de imersão em água fria — criando uma experiência que, segundo a empresa, deve parecer "uma visita ao spa, não a um hospital".
Essa abordagem não é acidental. Ao posicionar o scanner como um serviço de bem-estar — e não como um dispositivo médico diagnóstico —, a Midjourney consegue operar sob a política de dispositivos de bem-estar geral da FDA, publicada em janeiro de 2026, que permite que aparelhos de medição fisiológica não invasivos operem sem aprovação regulatória completa, desde que não façam alegações diagnósticas. Empresas como Prenuvo e Ezra já percorreram esse mesmo caminho para oferecer serviços de ressonância magnética de corpo inteiro para consumidores sem prescrição médica.
Em outras palavras: o Midjourney Scanner vai produzir mapas de composição corporal — informações sobre músculo, gordura, volume de órgãos — sem afirmar formalmente que diagnostica doenças. Se o sistema detectar algo suspeito, caberá ao usuário e ao seu médico tomar as decisões clínicas subsequentes.
Ambições sem precedentes: 50 mil scanners e 1 bilhão de exames por mês
Os números que a Midjourney projeta para o futuro são da mesma escala que as imagens geradas por sua IA: enormes, impressionantes e, para alguns, difíceis de acreditar.
De acordo com o PYMNTS, a meta de longo prazo da empresa é instalar mais de 50.000 scanners em todo o mundo até 2031, com capacidade para realizar 1 bilhão de exames por mês. Para efeito de comparação: os Estados Unidos possuem hoje cerca de 40.000 aparelhos de ressonância magnética em operação, segundo estimativas do setor de saúde. A Midjourney quer superar esse número globalmente em cinco anos — com um produto que, hoje, já existem apenas em protótipo.
A empresa também afirma que exames em escala suficientemente ampla poderiam "evitar 30% de todas as mortes e reduzir 50% dos custos de saúde". Essas afirmações não estão lastreadas em nenhuma evidência revisada por pares citada pela empresa até o momento.
O que os médicos pensam sobre varredura em massa de pessoas saudáveis
Aqui reside talvez o debate mais importante — e menos coberto — em torno do Midjourney Scanner. A questão não é se a tecnologia funciona. É: o que acontece quando você escaneia bilhões de pessoas saudáveis?
A literatura médica sobre triagem por imagem de populações assintomáticas é clara e consistente: entre 20% e 40% das varreduras de corpo inteiro em pessoas saudáveis produzem achados incidentais — anomalias internas visíveis na imagem que não eram o motivo do exame e cuja significância clínica é incerta. Desses achados, apenas 5% a 15% exigem qualquer intervenção. O restante leva as pessoas a consultas adicionais, mais exames de imagem e, ocasionalmente, biópsias — a maioria das quais confirma que o achado era benigno.
O radiologista Matthew Davenport, da Universidade de Michigan, já documentou que entre 15% e 30% de todos os exames de imagem em adultos contêm pelo menos um achado incidental. O pesquisador H. Gilbert Welch, especialista em sobrediagnóstico, descreve os chamados "incidentalomas" — achados benignos que disparam investigações invasivas — como um dos principais malefícios de programas agressivos de triagem preventiva.
Em escala de 1 bilhão de exames mensais, os modelos estatísticos sugerem:
- Entre 200 e 400 milhões de pessoas receberiam resultados com achados incidentais por mês
- A maioria desses achados não exigiria tratamento
- Cada achado geraria uma notificação clínica, uma decisão médica ou um paciente ansioso aguardando resultado
- A demanda por exames de acompanhamento poderia sobrecarregar sistemas de saúde globais
A Midjourney não abordou esse ponto em seu anúncio.
Quem está por trás do projeto e por que isso importa
O projeto do scanner é liderado por Ahmad Abbas, diretor de projetos de hardware de consumo da Midjourney, que ingressou na empresa no final de 2023 após atuar no desenvolvimento do Apple Vision Pro na Apple. De acordo com o Engadget, a equipe responsável pelo projeto tem apenas nove pessoas.
Essa é uma equipe pequena para uma tarefa tão monumental. Para contextualizar: a aprovação de um dispositivo médico diagnóstico pela FDA nos Estados Unidos pode levar de 3 a 10 anos, exige estudos clínicos com milhares de pacientes, protocolos de segurança rigorosos e evidências de eficácia comparativa. A Midjourney está, por ora, contornando esse caminho ao se posicionar como um serviço de bem-estar — uma estratégia inteligente de curto prazo, mas que encontrará limites se a empresa quiser, de fato, entrar na medicina diagnóstica.
A Bloomberg relata que o Midjourney Scanner é apenas um dos oito projetos que a empresa está desenvolvendo simultaneamente — quatro de hardware e quatro de software. David Holz afirmou que a empresa pretende lançar pelo menos dois produtos de hardware em breve. A Midjourney, vale lembrar, não possui investidores externos e diz financiar tudo com sua base de assinantes.
Midjourney não é Theranos — mas a comparação merece atenção
Inevitavelmente, o anúncio da Midjourney Medical gerou comparações com a Theranos, a startup de saúde que prometeu revolucionar os exames de sangue e entrou em colapso em escândalo de fraude. A comparação, embora compreensível, é imprecisa — e é importante ser justo.
O Midjourney Scanner não está fingindo que algo funciona quando não funciona. A física da USCT é bem estabelecida e já possui aprovação da FDA para aplicações específicas como triagem de câncer de mama. A parceria com a Butterfly Network fornece uma base tecnológica credível. E o próprio CEO foi mais transparente sobre as limitações do protótipo do que a maioria dos fundadores costuma ser em eventos de lançamento.
O que existe, de fato, é uma lacuna considerável entre o que o protótipo atual produz — mapas de composição corporal de um punhado de pessoas, em 20 minutos, sem qualquer IA no pipeline de imagem, sem clearance diagnóstico da FDA — e o que a empresa promete entregar: varreduras de corpo inteiro em 60 segundos, por alguns dólares, disponíveis em 50.000 unidades ao redor do mundo, capazes de evitar 30% de todas as mortes.
Essa lacuna não invalida o projeto. Mas exige ceticismo saudável, acompanhamento jornalístico rigoroso e, acima de tudo, paciência.
O que esperar nos próximos meses
De acordo com o Engadget, a Midjourney planeja os próximos 12 meses para refinar seus algoritmos e o hardware do scanner, conduzir estudos clínicos de pesquisa e trabalhar no design da segunda geração do equipamento. A empresa também iniciou conversas com a FDA sobre o caminho para obter aprovação diagnóstica incremental.
A lista de espera para o primeiro Midjourney Spa, em São Francisco, está aberta no site midjourney.com/medical. A abertura está prevista para o final de 2027.
Para 2028, a Midjourney aposta na terceira geração do scanner — com silício completamente personalizado, desenvolvido internamente — como o ponto de inflexão em que as capacidades do dispositivo darão um salto "de outra categoria" em relação ao protótipo atual. É também quando a empresa espera começar a buscar aprovações regulatórias mais amplas.
O mundo da saúde, da tecnologia e da regulação médica vai acompanhar de perto cada passo dessa jornada. Afinal, se as promessas da Midjourney Medical se confirmarem — mesmo que parcialmente —, o impacto sobre a medicina preventiva global será profundo. E se não se confirmarem, a empresa terá protagonizado um dos pilotos mais espetaculares — e mais arriscados — da história das startups de tecnologia em saúde.



