The Premise News
Negócios

Golpes bancários dobram no Brasil desde a chegada da IA generativa, aponta levantamento inédito

David Wendel Batista
Golpes bancários dobram no Brasil desde a chegada da IA generativa, aponta levantamento inédito PHOTO BY The Premise News | AI-generated illustrative image.

Os casos de estelionato registrados na Justiça de São Paulo mais que dobraram desde que as plataformas de inteligência artificial generativa começaram a ser disponibilizadas, no final de 2022. É o que revela um levantamento inédito da plataforma Jusbrasil, feito a pedido da Folha. O crime de estelionato, que inclui fraudes cometidas via Pix — frequentemente classificadas pela Polícia Federal como "cangaço digital" —, saltou de 1.073 para 2.270 decisões do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) em 2025. O avanço acompanha o aumento no registro de boletins de ocorrência por fraudes bancárias em todo o estado.

Por que os golpes bancários aumentaram com a IA generativa?

Embora não seja possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre a inteligência artificial e a explosão dos crimes cibernéticos, empresas renomadas de cibersegurança, como Kaspersky e Crowdstrike, apontam sinais claros do uso da tecnologia nas ações criminosas. Entre os indícios estão o aumento da frequência de campanhas fraudulentas — a IA permite criar conteúdos em massa —, o desaparecimento de erros ortográficos nas mensagens, a atuação de quadrilhas internacionais no mercado brasileiro, o uso de deepfakes — vídeos e áudios que simulam pessoas — e códigos de programação cada vez mais sofisticados. Essas características coincidem com processos consultados pela reportagem, nos quais quadrilhas empregaram IA para burlar reconhecimento facial de aplicativos, produzir anúncios falsos, clonar vozes e até aplicar o chamado “golpe do amor”, simulando relacionamentos afetivos para extorquir dinheiro.

Como a IA generativa está transformando as fraudes financeiras?

O uso de inteligência artificial generativa permitiu que criminosos driblassem sistemas de biometria, disparassem mensagens em massa e eliminassem erros de ortografia que antes denunciavam tentativas de golpe. A Crowdstrike, por exemplo, registrou que o uso de IA em golpes pelo mundo avançou 89% e que a tecnologia está presente em quase 70% das ações criminosas. No Brasil, um caso emblemático ocorreu em Goiás: após denúncia do C6 Bank, a Polícia Civil goiana prendeu um homem que utilizou IA e documentos vazados para tentar acessar 259 contas bancárias, em 709 tentativas. O banco afirmou que suas ferramentas antifraude barraram as ações e que a consumação dos golpes foi frustrada exclusivamente pela intervenção do setor de segurança da instituição, conforme reconhecido pela decisão judicial.

As lacunas nos dados oficiais sobre crimes digitais

Apesar do crescimento exponencial, as informações sobre fraudes virtuais ainda são precárias. Das 8.338 decisões emitidas pelo TJ-SP em 2026 com tema central de estelionato, 3.786 não especificavam se o crime ocorreu presencialmente ou por meios eletrônicos. Nas restantes, 3.621 foram por via digital e 931, presenciais. O uso de inteligência artificial aparece como relevante em apenas cinco casos, um contraste com as estatísticas internacionais. O delegado da Polícia Civil do Piauí, Alessandro Barreto, explica que muitas vítimas preferem buscar o ressarcimento diretamente nos bancos, em vez de registrar boletim de ocorrência. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as polícias do país solucionam apenas 2% dos casos de estelionato. Barreto defende que o primeiro passo para reverter esse cenário é um boletim mais detalhado, com número de telefone, dados da conta e da chave Pix, além de imagens sempre que possível.

O governo federal consegue acompanhar o avanço dos golpes?

Em maio de 2026, o governo sancionou uma lei que aumenta as penas para estelionato e furto mediante fraude na internet. No entanto, o Ministério da Justiça e Segurança Pública afirma que não dispõe de dados precisos sobre se os crimes ocorreram em ambiente digital ou físico, repetindo a lacuna observada nos tribunais. Não há também dados centralizados sobre o uso de IA nas fraudes. O governo concentra as notificações por meio da Aliança Nacional de Combate a Fraudes Bancárias, um acordo entre o ministério e a Febraban (Federação Brasileira de Bancos). Na metodologia do projeto, estados como Minas Gerais, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Distrito Federal não informam no boletim de ocorrência se o crime ocorreu em ambiente virtual. As administrações estaduais justificam a falta de contabilização por ausência de previsão na portaria que regula as estatísticas policiais. A Polícia Federal também não dispõe de estatísticas consolidadas sobre crimes digitais e utiliza relatórios de entidades especializadas com recorte global. Cada instituição bancária, segundo a Febraban, adota políticas individualizadas para compartilhar dados sobre fraudes.

Quais são os principais golpes identificados na Justiça?

O levantamento da Jusbrasil, que avaliou decisões proferidas em 2026 em processos iniciados entre 2016 e este ano, indica um aumento no número de ações judiciais sobre estelionato. Entre os golpes mais frequentes estão a falsa venda (416 casos), a falsa central de atendimento e o golpe do falso comprador. O WhatsApp é a plataforma mais citada, com 1.300 menções, seguido por problemas com internet banking (752), ligações telefônicas (405), sites falsos (270) e comércio eletrônico (146). A Meta, dona do WhatsApp, não comentou o assunto. A seguir, os principais tipos de golpe com casos reais e decisões judiciais.

O que é o golpe Mão Fantasma?

O golpe: Os criminosos induzem a vítima a instalar aplicativos ou vírus que garantem o controle remoto do smartphone. Caso real: Uma idosa foi induzida, durante negociações para reforma de sua casa, a instalar um aplicativo e fornecer senhas. O golpista se passou por um dos construtores contratados. Com o controle do aparelho, os fraudadores contrataram três empréstimos e transferiram R$ 45,4 mil via Pix. Decisão: O banco da vítima foi obrigado a pagar R$ 44,7 mil por danos materiais e R$ 5.000 por danos morais.

Como funciona o golpe do falso comprador?

O golpe: Criminosos induzem vendedores na internet a enviar produtos simulando comprovantes de pagamento que nunca foram feitos. É o caso mais frequente no levantamento. Caso real: A autora anunciou móveis por R$ 5.000 em uma plataforma de vendas. A negociação começou no chat do site e migrou para o WhatsApp. Após receber e-mails falsos que imitavam a identidade visual da plataforma, a vendedora entregou os bens a um homem que se apresentou como responsável pelo frete. Decisão: O juiz classificou o caso como estelionato e isentou a plataforma de vendas de responsabilidade, sob o argumento de que a fraude ocorreu fora do ambiente do site.

Em que consiste o golpe da falsa venda?

O golpe: O comprador paga por um bem anunciado por um preço atraente, mas o falso comerciante desaparece após receber o dinheiro. Caso real: Durante a negociação de um veículo de R$ 70 mil, um fraudador replicou o anúncio com preço inferior, omitindo dados e impedindo o contato direto entre comprador e verdadeiro dono. Pelo WhatsApp, o golpista convenceu o comprador a depositar R$ 40 mil em uma conta de terceiro e enviou um comprovante falso ao vendedor, que liberou o carro. Decisão: A Justiça julgou o pedido parcialmente procedente. O negócio foi rescindido, o veículo retornou ao vendedor, mas este foi condenado a ressarcir metade do valor pago pelo comprador ao estelionatário (R$ 20 mil).

O que é o golpe do falso funcionário ou falsa central?

O golpe: O criminoso liga para a vítima fingindo ser funcionário ou gerente do banco para relatar uma falsa urgência na conta. Versões modernas usam IA para imitar vozes de atendentes e ferramentas de mascaramento de chamadas (spoofing). Caso real: Uma cliente recebeu a ligação de um suposto funcionário do banco orientando sua filha a fazer ajustes no aplicativo. A instrução resultou na contratação de um empréstimo e na transferência do valor via Pix para terceiros. Em outro caso, a vítima clicou em um link enviado por mensagem após o telefonema, gerando prejuízo de R$ 14,1 mil. Decisão: No primeiro caso, o magistrado considerou o pedido improcedente e liberou o banco da indenização. No segundo, a Justiça reconheceu a responsabilidade civil e determinou o dever de indenizar apenas por parte da instituição de pagamento que recebeu o valor, afastando a culpa do banco de origem.

Como age o chamado golpe do amor?

O golpe: Criminosos seduzem as vítimas em redes sociais com perfis e fotos falsos para pedir dinheiro. Softwares de IA conseguem reproduzir voz e aparência de pessoas públicas para aplicar a fraude. Caso real: A vítima conheceu o réu nas redes sociais e perdeu cerca de R$ 136 mil. Após estabelecer vínculo afetivo, o golpista a convenceu a abrir uma empresa com ele e contrair financiamentos de veículos e empréstimos usando assinaturas falsas. Decisão: A Justiça condenou o réu por estelionato continuado, com imposição de pena de prisão e fixação de indenização para reparar os danos.

O que é o golpe de troca de chip (SIM Swap)?

O golpe: Os criminosos assumem o controle da linha telefônica da vítima transferindo o número para um novo chip (SIM card) com a ajuda de dados vazados ou funcionários corrompidos de operadoras. Com o número clonado, redefinem senhas de e-mails e bancos. Caso real: Um usuário teve a linha transferida sem autorização. A falha permitiu que fraudadores acessassem suas contas de e-mail e sua carteira em uma corretora de criptoativos, realizando transferências indevidas do exterior. Decisão: O pedido foi julgado procedente, e a operadora de telefonia foi condenada a pagar R$ 44,7 mil por danos materiais e R$ 5.000 por danos morais devido à falha de segurança na custódia da linha.

Como se proteger de fraudes e contestar transações?

O Procon-SP oferece orientações essenciais para compras online. Confira as principais recomendações:

  • Pesquise exaustivamente a reputação da loja ou do vendedor antes de fechar o negócio;
  • Desconfie de ofertas com preços excessivamente abaixo da média do mercado;
  • Verifique dados como o CNPJ, o endereço físico e os canais oficiais de atendimento;
  • Guarde prints de anúncios, comprovantes de pagamento e históricos de conversas;
  • Confira prazos de entrega, políticas de troca e as condições descritas nas letras miúdas.

Recomendações técnicas de segurança digital incluem:

  • Ignore a urgência: desconfie de sites com contadores regressivos ou pressões para fechar a compra imediatamente;
  • Cheque o CNPJ: veja se o CNPJ exibido na página condiz com a atividade de varejo (evite empresas registradas como consultorias ou construção civil vendendo eletrônicos, por exemplo);
  • Idade do site: utilize serviços gratuitos de WHOIS para verificar a data de criação do domínio. Páginas criadas há menos de 30 dias têm altíssimo risco de fraude;
  • Diversifique o pagamento: evite sites que aceitem exclusivamente Pix. Plataformas idôneas oferecem cartão de crédito, que permite contestação da despesa (chargeback).

Perguntas Frequentes

Como acionar o Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Pix?

Ao perceber que foi vítima de um golpe, o usuário deve acionar imediatamente o seu banco. Pelas regras do Banco Central, a instituição deve guiar o cliente pelas etapas abaixo:

  1. Seleção da transação: o aplicativo deve direcionar o usuário para o extrato para apontar a transferência exata do golpe;
  2. Tipificação do crime: o cliente deve assinalar o tipo de fraude sofrida no menu, com base nas opções padrão do Banco Central:
    1. Fui enganado por um golpista e realizei uma transação voluntária;
    2. Outra pessoa transferiu recursos da minha conta sem acesso à minha senha;
    3. Fui ameaçado ou tive minha liberdade restringida para fazer a transação (sequestro-relâmpago);
    4. Um fraudador usou minha senha sem autorização.
  3. Relato descritivo: caso selecione "outro tipo de golpe", o cliente dispõe de um campo de texto de até 2.000 caracteres para detalhar o ocorrido. O envio de boletins de ocorrência e capturas de tela acelera a análise. Se considerada procedente, os recursos são bloqueados na conta de destino e devolvidos em até 11 dias.
Nossa análise — The Premise News: O aumento dos golpes bancários no Brasil desde a chegada da IA generativa expõe uma vulnerabilidade estrutural no sistema de segurança digital e na resposta do Estado. Por trás dos números — 1.073 para 2.270 decisões em São Paulo — está um cenário em que a tecnologia avança mais rápido que a capacidade de investigação e regulação. O que está em jogo é a confiança no sistema financeiro e a proteção dos cidadãos, especialmente os mais vulneráveis, como idosos que perderam R$ 45,4 mil em um único golpe. A contradição central é que, enquanto a inteligência artificial se torna uma ferramenta de crime em massa — com 89% de aumento global, segundo a Crowdstrike —, o Judiciário e as polícias ainda carecem de dados básicos para mapear o problema. O leitor deve ficar atento aos próximos movimentos do governo: a lei sancionada em maio de 2026 é um passo, mas sem estatísticas consolidadas e boletins mais detalhados, o combate continuará cego. A mensagem final é clara: a segurança digital não depende apenas de tecnologia, mas de uma articulação urgente entre instituições, bancos e cidadãos.

O que você achou?

1 reações