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Inteligência Artificial

ONU alerta que consumo energético da IA pode duplicar até 2030 e igualar emissões do Reino Unido

Victória dos Santos de Sá
ONU alerta que consumo energético da IA pode duplicar até 2030 e igualar emissões do Reino Unido PHOTO BY The Premise News | IA OPENAI

A promessa de que a inteligência artificial se tornaria cada vez mais eficiente com o tempo pode não se concretizar, segundo um novo relatório das Nações Unidas. A expansão acelerada da IA pode duplicar o consumo mundial de energia até 2030, atingindo cerca de 3% de toda a eletricidade gerada no planeta. As emissões resultantes seriam comparáveis às do Reino Unido, e a procura por água para arrefecimento dos sistemas superaria o volume anual de água potável consumido por toda a população global. O documento, divulgado a 7 de junho de 2026, está disponível no site da UNU e analisa os custos ambientais da inteligência artificial em energia, carbono, água e uso do solo.

O paradoxo de Jevons e a ilusão da eficiência

O relatório baseia-se no paradoxo de Jevons, um conceito económico formulado no século XIX por William Stanley Jevons. A teoria sustenta que os ganhos de eficiência na utilização de um recurso não reduzem necessariamente o consumo total — pelo contrário, quando a tecnologia se torna mais barata e acessível, a procura tende a aumentar. Jevons observou este fenómeno na Inglaterra vitoriana, onde melhorias na eficiência do carvão acabaram por estimular um aumento do consumo, em vez de o diminuir. Aplicada à inteligência artificial, esta lógica sugere que modelos mais eficientes podem impulsionar ainda mais a adoção da tecnologia, gerando novas aplicações em diversos setores e compensando — ou até superando — os ganhos técnicos obtidos.

Quando a eficiência gera mais consumo

Com custos operacionais mais baixos e maior acessibilidade, a inteligência artificial é cada vez mais incorporada em processos produtivos e serviços. O estudo indica que esta dinâmica já está em curso: em 2025, os centros de dados consumiram um volume de eletricidade equivalente ao utilizado pela Arábia Saudita, um dos maiores consumidores de energia do mundo. Caso o consumo duplique até ao final da década, seriam necessárias aproximadamente 6,7 mil milhões de árvores plantadas ao longo de dez anos apenas para compensar as emissões geradas. O cenário reforça a tese de que a eficiência técnica, por si só, não resolve o problema ambiental.

Os números alarmantes do impacto ambiental

Para além do consumo energético, a infraestrutura necessária para sustentar a expansão da IA exigiria cerca de 9,3 biliões de litros de água e uma área física quase dez vezes maior que a Cidade do México. O relatório alerta que as emissões decorrentes da atividade podem igualar as do Reino Unido. A concentração geográfica da infraestrutura é igualmente preocupante: apenas 32 países alojam sistemas de computação em nuvem dedicados à IA, com cerca de 90% da capacidade concentrada nos Estados Unidos e na China. Esta disparidade pode aprofundar a divisão digital global, deixando muitas nações a arcar com os impactos ambientais da extração de minerais e do descarte de resíduos eletrónicos, sem usufruir dos benefícios da tecnologia.

Recomendações e o apelo à transparência

A ONU propõe um conjunto de princípios para orientar o desenvolvimento sustentável da inteligência artificial: transparência, eficiência desde a conceção, responsabilidade ao longo de todo o ciclo de vida, equidade, cooperação internacional e uso sustentável dos recursos naturais. Entre as recomendações concretas está a adoção de relatórios ambientais regulares durante o desenvolvimento e a operação dos sistemas de IA. O estudo sugere ainda que os governos incorporem projeções de procura da tecnologia nos seus planeamentos energéticos e climáticos. A preocupação torna-se ainda mais premente à medida que a inteligência artificial passa a integrar serviços públicos em vários países. A visão sistémica defendida pelos autores abrange toda a cadeia produtiva, desde a extração de matérias-primas até à reciclagem.

O exemplo da Nova Zelândia e da Austrália

Países como a Nova Zelândia e a Austrália já implementam estratégias nacionais para ampliar o uso da IA em órgãos governamentais. Na Nova Zelândia, foi criada uma estrutura para orientar a adoção da tecnologia no setor público, enquanto na Austrália, projetos envolvem transcrição automatizada de acervos audiovisuais e apoio ao processamento de solicitações governamentais. No entanto, o relatório observa que ambos os países adotam modelos regulatórios considerados leves, focados em princípios gerais. Para os autores, esta abordagem pode deixar em segundo plano os impactos ambientais associados à expansão da inteligência artificial. O documento defende uma análise que considere toda a cadeia produtiva da IA, sob pena de os ganhos de eficiência serem anulados pelo crescimento acelerado do uso da tecnologia.

A nossa análise — The Premise News: O relatório da ONU vai além de um alerta técnico: expõe uma contradição central no discurso de inovação sustentável. A crença de que a eficiência tecnológica resolverá automaticamente os problemas ambientais ignora o comportamento de mercado descrito pelo paradoxo de Jevons. O que está em jogo é a possibilidade de que a inteligência artificial, em vez de ajudar a mitigar a crise climática, se torne um motor adicional de emissões e consumo de recursos. A tensão entre eficiência e escala revela um dilema mais amplo: sem regulação robusta e transparência obrigatória, o avanço tecnológico pode agravar as desigualdades globais, concentrando benefícios em poucos países e externalizando custos ambientais para os demais. A concentração geográfica da infraestrutura agrava a divisão digital, enquanto as externalidades recaem sobre os países mais vulneráveis. O apelo a relatórios ambientais regulares é um primeiro passo, mas a implementação será o verdadeiro teste. Nos próximos meses, será crucial observar se governos como os da Nova Zelândia e Austrália ajustarão os seus marcos regulatórios para incluir métricas ambientais concretas. A mensagem central do estudo é clara: eficiência não é sinónimo de sustentabilidade — e o tempo para agir está a esgotar-se.

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