O Banco Mundial reviu em baixa a projecção de crescimento da economia global para 2026, fixando-a em 2,5%, num alerta que sublinha os riscos de uma desaceleração mais acentuada caso a crise energética se agrave. O novo número, divulgado esta quinta-feira, 11 de Junho, no relatório Global Economic Prospects, representa uma descida face à estimativa anterior e sinaliza que a recuperação económica perdeu ímpeto. A instituição aponta a guerra no Médio Oriente como o principal motor desta revisão, uma vez que o conflito elevou os preços da energia, reacendeu a inflação e ampliou a incerteza nos mercados financeiros. Segundo informações da Reuters, o banco advertiu ainda que, num cenário adverso, o crescimento poderia cair para 1,3%.
Choque energético e o impacto da guerra no Médio Oriente
O conflito no Médio Oriente está no centro da decisão do Banco Mundial de reduzir a previsão para 2026. A guerra provocou uma forte escalada nos preços da energia, alterou as expectativas inflacionistas e reforçou o aperto monetário em várias economias. A instituição estima que o Brent atinja uma média de 94 dólares por barril este ano, um aumento de 36% face a 2025, assumindo que as maiores interrupções nas entregas sejam reduzidas até Julho. No entanto, o banco sublinha que o cenário pode deteriorar-se rapidamente se os riscos persistirem. Além da energia, o aumento dos preços dos fertilizantes foi igualmente identificado como factor adicional de pressão, afectando a produção agrícola, os custos alimentares e o orçamento de famílias e governos.
Inflação global acelera e dificulta acção dos bancos centrais
Outro dado relevante do relatório é a projecção de inflação global em 4,0% para 2026, acima dos 3,3% registados em 2025. O Banco Mundial afirma que o processo de desinflação perdeu ritmo, sobretudo devido ao choque energético provocado pelas tensões no Médio Oriente. A subida do preço do petróleo tem efeitos rápidos no transporte, na alimentação, na indústria, nos fretes e nos preços finais de bens e serviços. Esta situação leva os bancos centrais a manter juros elevados por mais tempo, encarecendo o crédito e limitando o consumo. O relatório destaca que a política pública global terá de equilibrar duas prioridades: combater a inflação e preservar algum grau de apoio ao crescimento.
Países emergentes enfrentam o maior impacto da desaceleração
As economias em desenvolvimento estão entre as mais afectadas por este novo cenário. A previsão de crescimento para esses países caiu para 3,6% em 2026, o nível mais baixo desde o período pós-pandemia. O Banco Mundial observa que muitos países de baixo e médio rendimento ainda não conseguiram recuperar o terreno perdido nos últimos anos, e a fraqueza do crescimento impede a aproximação dos níveis de rendimento entre emergentes e economias avançadas. Isto significa que o fosso entre regiões ricas e pobres pode continuar alargado por mais tempo. Quando os emergentes crescem menos, o comércio internacional perde dinamismo e a pressão sobre as moedas locais aumenta, uma vez que os investidores preferem activos mais seguros em períodos de volatilidade.
EUA, Europa, China e Índia: trajectórias divergentes
O relatório do Banco Mundial mostra ainda que os efeitos não são uniformes entre as principais economias. Os Estados Unidos mantiveram a previsão de crescimento de 2,2% em 2026, enquanto a Zona Euro deverá crescer apenas 0,8% no mesmo período, uma quebra face aos 1,4% registados em 2025. O Japão também perde ritmo, com uma expansão estimada em 0,7%. A China viu a sua projecção reduzida para 4,2%, depois de ter crescido 5% em 2025. Na outra ponta, a Índia continua a ser a grande excepção positiva, com uma previsão de crescimento de 6,6% em 2026, mantendo-se como a grande economia mais dinâmica do mundo. Contudo, mesmo a Índia não está imune ao ambiente internacional mais fraco, uma vez que o comércio, os preços da energia e a dinâmica dos juros globais também afectam o seu desempenho.
Perspectivas para 2027 e 2028: recuperação frágil ou mais riscos?
Apesar do tom mais cauteloso, o Banco Mundial ainda projecta alguma melhoria a partir de 2027. A expectativa é de um crescimento global de 2,8% em 2027 e 2028, embora esse valor continue abaixo da média de 3,2% observada na década de 2010. A instituição afirma que a economia mundial está hoje menos resiliente do que em 2008 e também menos do que em 2018, revelando que os efeitos cumulativos das crises recentes ainda não foram totalmente absorvidos. Entre os factores que explicam esta fragilidade contam-se a desaceleração do crescimento populacional, o menor ritmo do investimento privado, a queda do investimento público, o elevado endividamento público e a perda de fôlego do comércio internacional. O relatório observou ainda que uma adopção mais ampla da inteligência artificial pode trazer algum alívio no médio prazo, mas não será suficiente para compensar integralmente os riscos de curto prazo decorrentes da energia cara, da inflação mais alta e da incerteza geopolítica.
O corte da previsão de crescimento global para 2,5% em 2026 sinaliza que a economia mundial entrou numa fase de maior cautela. O Banco Mundial deixa claro que o cenário continua sujeito a deterioração caso o conflito no Médio Oriente se prolongue e a energia se mantenha pressionada. Em vez de uma recuperação linear, o que se observa é uma economia global vulnerável a choques, marcada por inflação persistente, juros altos e crescimento abaixo do ideal. Para investidores e empresas, a principal conclusão é que 2026 tende a ser pautado pela volatilidade, com as decisões dos bancos centrais, o preço do petróleo, a inflação e os desdobramentos geopolíticos a terem peso decisivo sobre moedas, mercados accionistas, matérias-primas e crédito internacional.
