O Bitcoin recuou esta sexta-feira (5) para cerca de US$ 61.700, o valor mais baixo desde 10 de outubro de 2024, numa sessão em que a criptomoeda chegou a descer 3,9% e a aproximar-se dos US$ 61 mil. O gatilho imediato da queda foi o relatório de emprego dos Estados Unidos (payroll) relativo a maio, que revelou a criação de 172.000 postos de trabalho, mais do dobro da estimativa de consenso do mercado, situada entre 80.000 e 85.000. Um mercado laboral mais aquecido reduz as probabilidades de o banco central americano (Fed) cortar as taxas de juro nas próximas reuniões, o que pressiona ativos de risco como as criptomoedas.
Payroll robusto reduz esperanças de corte de juros
Os números do emprego nos EUA vieram muito acima do previsto, afastando a perspetiva de um alívio monetário iminente. Com a economia a gerar mais de 170 mil novas vagas num só mês, os investidores antecipam que a Fed mantenha a taxa de juro inalterada, penalizando instrumentos mais especulativos. O Bitcoin, que já vinha sob pressão desde o início da semana, acelerou as perdas com a divulgação do dado — um movimento que os analistas consideram coerente com a reação de ativos de risco a notícias de emprego fortes. O mercado passa agora a concentrar-se na reunião do Fed marcada para 16 e 17 de junho, a primeira sob a liderança do novo presidente, Kevin Warsh, procurando sinais sobre a trajetória futura dos juros.
Ethereum sofre queda ainda mais acentuada
O Ethereum (ETH), segunda maior criptomoeda do mundo, registou um recuo ainda mais pronunciado: caiu mais de 8% no dia, para US$ 1.625, o nível mais baixo desde abril de 2025, e negociava perto dos US$ 1.665. No acumulado dos últimos sete dias, o Bitcoin perde 15,6% e o Ether, 17,3%. A sequência de perdas do Bitcoin é a mais longa desde agosto de 2025, iniciada na segunda-feira (2) depois de a Strategy ter anunciado a venda de uma pequena quantidade de Bitcoin — a primeira alienação desde 2022. Desde então, a saída contínua de recursos dos fundos de investimento em Bitcoin negociados em bolsa (ETFs) nos EUA e o descolamento face às bolsas americanas, que continuam a renovar máximas históricas impulsionadas pela euforia com inteligência artificial, têm corroído a confiança dos investidores no mercado cripto.
Saída de ETFs e descolamento das bolsas corroem confiança
A divergência entre o mercado de ativos digitais e as bolsas tradicionais norte-americanas é cada vez mais notada pelos analistas. Caroline Mauron, cofundadora da Orbit Markets, afirmou à Bloomberg que o nível de US$ 60 mil foi um forte suporte em fevereiro e que a última vez que foi observado foi “em 2024, antes da eleição de Trump”, considerando que uma rutura clara será prejudicial. Dean Chen, analista da corretora Bitunix, também à Bloomberg, sublinhou: “À medida que o capital global continua a fluir para ações de inteligência artificial e tecnologia de grande capitalização, os ativos digitais precisam competir com esses setores de alto crescimento pela alocação dos investidores.” A combinação de saídas de ETFs com a falta de catalisadores positivos no ecossistema cripto tem ampliado a pressão vendedora, transformando o apetite pelo risco num fator determinante para a trajetória das cotações.
Dados on-chain revelam pressão vendedora intensa
Informações retiradas da blockchain reforçam o quadro de vendas generalizadas. As perdas realizadas no mercado agregado saltaram para US$ 1,3 milhão por dia com o Bitcoin na zona dos US$ 62 mil, de acordo com Marco Aurélio de Camargos, CIO da Vaul Capital. Detentores de longo prazo foram responsáveis por cerca de 770 milhões desse total (59% das vendas), indicando que investidores que compraram perto do topo do ciclo e seguraram as posições durante a queda estão agora a realizar prejuízo. Paralelamente, os depósitos de grandes investidores — as chamadas “baleias” — na exchange Binance duplicaram ao longo da semana: foram cerca de 8.200 BTC enviados para a plataforma no dia 2 de junho e mais de 6.400 no dia 4, contra uma média mensal de 1.200 BTC desde meados de abril. Movimentos deste tipo sinalizam geralmente intenção de venda, pois os investidores transferem os ativos para a corretora antes de negociar. Contudo, a Vault Capital adverte que a leitura não é unidirecional: a última vez que os depósitos de baleias atingiram este nível foi durante a queda abaixo de US$ 60 mil em fevereiro, episódio que marcou um fundo local antes de uma recuperação.
US$ 60 mil: a barreira técnica que define o próximo movimento
No plano da análise técnica, o patamar de US$ 60 mil surge como o ponto crítico de observação para os investidores. De acordo com Camargos, um fecho abaixo desse valor abriria caminho para quedas mais expressivas, em direção à faixa entre US$ 55 mil e US$ 58 mil. Por outro lado, uma recuperação que sustente o Bitcoin acima de US$ 65 mil até ao final da semana seria o primeiro sinal de estabilização. Rodrigo Paz, analista do InfoMoney, escreveu esta sexta-feira: “Enquanto isso não ocorrer, sigo interpretando o cenário técnico como predominantemente baixista, com o mercado concentrando as suas atenções na defesa da importante faixa dos US$ 60 mil.” O mercado aguarda ainda a reunião do Fed de 16 e 17 de junho, cujo tom de comunicação deverá definir o apetite pelo risco nas semanas seguintes, especialmente depois de um payroll que reduz as hipóteses de um corte de juros já nesse encontro.
