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Tecnologia Espacial

Rússia aperta cerco digital e russos respondem com VPNs e telemóveis duplos antes das eleições

Victória dos Santos de Sá
Rússia aperta cerco digital e russos respondem com VPNs e telemóveis duplos antes das eleições PHOTO BY The Premise News | AI-generated illustrative image.

Os russos estão a recorrer a uma combinação de VPNs, dois telemóveis e aplicativos alternativos para contornar o maior aperto digital já imposto pelo Kremlin sob a liderança de Vladimir Putin. Num café no centro de Moscovo, uma designer de interiores de 41 anos alterna entre uma rede privada virtual para usar o WhatsApp e o desligamento da ferramenta para comprar passagens na Russian Railways. Ela também carrega um segundo telefone para se comunicar com clientes pelo aplicativo estatal MAX. A rotina, descrita como um enorme incómodo, tornou-se cada vez mais comum entre os cidadãos que precisam navegar por um ambiente digital repleto de bloqueios e restrições.

O aperto digital russo: razões e medidas

Segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, as medidas são necessárias num momento em que a Rússia enfrenta o que o governo classifica como um confronto existencial com o Ocidente por causa da Ucrânia. As autoridades têm promovido a chamada soberania digital, incentivando o uso de alternativas nacionais a aplicativos e sites estrangeiros. O Serviço Federal de Segurança (FSB), sucessor da KGB, passou a ordenar que operadoras de telecomunicações desliguem a internet móvel por dias em diversas regiões, alegando que drones ucranianos podem usá-la para navegação. Já o regulador de comunicações Roskomnadzor bloqueia ou desacelera o acesso a uma lista crescente de plataformas, acusadas de abrigar conteúdo ilegal ou extremista.

Que medidas concretas foram adotadas pelo Kremlin?

O FSB emitiu ordens para que as operadoras desliguem a internet móvel durante períodos prolongados em várias regiões, sob o argumento de que drones ucranianos poderiam usar a rede para navegação. Paralelamente, o Roskomnadзор intensificou o bloqueio e a desaceleração de plataformas estrangeiras, incluindo redes sociais e serviços de mensagens, acusando-as de conter material ilegal ou extremista. Estas ações fazem parte de uma estratégia mais ampla de soberania digital que visa reduzir a dependência de tecnologias ocidentais.

A queda na aprovação de Putin e o descontentamento popular

A frustração com o controlo digital, combinada ao aumento de preços, elevação de impostos e cansaço com a guerra, tem contribuído para a queda nos índices de aprovação de Putin. De acordo com o instituto estatal VTsIOM, a aprovação do presidente caiu de 75,1% em fevereiro para 65,6% em abril, o menor nível desde o início do conflito generalizado na Ucrânia em 2022. Atualmente, os números recuperaram ligeiramente para quase 67%. As interrupções no acesso à internet, que afetaram bancos, transportes e comércio eletrónico, irritaram a população exatamente quando o país se prepara para uma eleição parlamentar em setembro. Até mesmo blogueiros e influenciadores que normalmente evitam política criticaram as medidas.

Como é que as restrições à internet afetam a popularidade do presidente?

Os bloqueios afetam serviços essenciais como bancos, transportes e comércio eletrónico, gerando um descontentamento generalizado. A combinação com a inflação, impostos mais altos e o desgaste com a guerra fez com que a aprovação de Putin caísse para níveis não vistos desde 2022. A insatisfação é particularmente notada entre blogueiros e influenciadores, que normalmente se abstêm de comentar política, mas que agora denunciam as restrições. Este cenário surge num momento politicamente sensível, com as eleições parlamentares marcadas para setembro.

Estratégias dos russos para contornar o bloqueio digital

O uso de VPNs disparou na Rússia. Dados da consultoria Digital Budget, citados pelo jornal Kommersant, mostram que em março houve 9,2 milhões de downloads dos cinco serviços de VPN mais populares na Google Play Store, um número 14 vezes maior do que no mesmo mês do ano anterior. Sarkis Darbinyan, ativista russo pela liberdade na internet baseado em Lisboa e classificado como agente estrangeiro por Moscovo, afirmou nunca ter visto uma taxa de adoção tão alta. Muitos usuários também recorrem a um segundo telefone para isolar o aplicativo MAX, de propriedade da gigante de tecnologia VK, que o governo promove como alternativa aos serviços estrangeiros. A designer Irina, que pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome devido à sensibilidade do assunto, descreve o ritual de ligar e desligar VPNs e alternar entre mensageiros e telefones como uma necessidade diária.

Qual o papel do aplicativo MAX na estratégia de soberania digital?

O MAX, lançado no ano passado, já tem mais de 85 milhões de usuários diários, segundo a sua proprietária VK em maio. As autoridades vêm pressionando os russos a adotar a plataforma como parte da campanha por soberania digital, mas muitos desconfiam. Críticos do Kremlin e algumas empresas de tecnologia ocidentais alertam que o MAX pode ser usado para monitorizar os cidadãos, acusação que a VK nega. Para se sentir mais segura, Irina mantém o aplicativo num aparelho separado. Fontes próximas ao Kremlin relataram à Reuters que mesmo funcionários públicos leais usam VPNs e carregam múltiplos telefones, e alguns chegam a remover o microfone e a câmara dos dispositivos com o MAX instalado, temendo que o FSB possa aceder-lhes.

É legal usar VPN na Rússia?

De acordo com a reportagem, utilizar VPNs não é ilegal no país. No entanto, o Roskomnadzor restringiu o acesso a centenas desses serviços, estabelecendo um jogo de gato e rato com os usuários, que precisam baixar novas ferramentas constantemente para aceder ao conteúdo desejado. Em abril, órgãos governamentais, bancos e grandes varejistas online, seguindo instruções do regulador, começaram a impedir que pessoas com VPN ativada acedessem aos seus sites. A medida coincidiu com uma queda de 10% no tráfego do Wildberries, o equivalente russo da Amazon, segundo a Digital Budget, que observou que muitos usuários simplesmente perdem o interesse em comprar quando não conseguem abrir a página do produto.

Impacto económico e logístico dos apagões digitais

O impacto vai além do incómodo pessoal. Quando aplicativos de navegação pararam de funcionar em Moscovo em março, os entregadores do Flowwow, um mercado online de flores e presentes, tiveram que usar o Wi-Fi dos vendedores para baixar rotas até os clientes, contou Yuri Semichastnov, chefe de logística do site. As vendas de mapas de papel mais que duplicaram na capital durante o apagão, de acordo com dados do Wildberries. A interrupção de quase três semanas em Moscovo também irritou burocratas do alto escalão que dependem da internet e do Telegram para angariar votos para o partido governista Rússia Unida, segundo duas fontes próximas ao Kremlin e analistas. Tatiana Stanovaya, investigadora sénior do Centro Carnegie Rússia Eurásia, escreveu em abril que a questão não é se o regime garantirá o resultado desejado, mas se o processo eleitoral será tranquilo.

As restrições vão acabar em breve?

O Kremlin suavizou o discurso nas últimas semanas e garantiu que os desligamentos da internet móvel são temporários. Um plano para cobrar aos clientes um valor extra por usar mais de 15 gigabytes de dados estrangeiros por mês foi adiado em maio, e a imprensa russa informou que a exigência, que tem como alvo usuários de VPN, provavelmente será introduzida após a eleição. Putin também pediu ao governo e ao FSB que trabalhem juntos para garantir que serviços críticos, como plataformas de saúde e sistemas de pagamento online, permaneçam operacionais. A promessa de normalização contrasta com a escalada das restrições observada nos últimos meses.

Perguntas Frequentes

É seguro usar o aplicativo MAX?

Críticos do Kremlin e algumas empresas de tecnologia ocidentais advertem que o MAX pode ser usado para rastrear usuários, mas a VK, sua proprietária, nega veementemente. Muitos russos preferem manter o app isolado num segundo telefone por precaução, e alguns funcionários públicos chegam a remover microfones e câmaras dos dispositivos onde o MAX está instalado. A desconfiança reflete o receio de vigilância estatal.

As restrições à internet vão acabar?

O Kremlin garantiu que os desligamentos da internet móvel são temporários. O plano de cobrar um valor extra por usar mais de 15 gigabytes de dados estrangeiros foi adiado em maio, com a imprensa russa a indicar que a medida será provavelmente introduzida após a eleição. Putin instruiu o governo e o FSB a assegurarem que serviços críticos, como plataformas de saúde e sistemas de pagamento online, continuem operacionais. A promessa de alívio contrasta com o aperto contínuo.

A nossa análise — The Premise News: A escalada do controlo digital na Rússia revela um dilema profundo: o Kremlin precisa equilibrar a segurança nacional com a necessidade de manter a economia a funcionar e a população minimamente satisfeita antes de uma eleição crucial. O que está em jogo não é apenas o acesso a aplicativos, mas a própria confiança no sistema — a queda na aprovação de Putin mostra que o descontentamento com as restrições, somado a outros fatores, tem consequências políticas reais. A contradição entre o discurso de soberania digital e a realidade de que até funcionários públicos usam VPNs expõe a fragilidade da estratégia. Os leitores devem observar se o adiamento da taxa sobre dados estrangeiros e a promessa de normalização serão cumpridos após setembro, ou se novas restrições surgirão. No fim, a fala de Irina — "nada é mais permanente do que o temporário" — captura a essência de um sistema que constantemente promete alívio enquanto aperta o cerco.

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