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Gaokao 2026: 12,9 milhões de candidatos enfrentam o vestibular mais difícil sob vigilância inteligente

Victória dos Santos de Sá
Gaokao 2026: 12,9 milhões de candidatos enfrentam o vestibular mais difícil sob vigilância inteligente Foto: Lekhaki/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Mais de 12,9 milhões de estudantes iniciaram no domingo (7) o gaokao, o exame de admissão ao ensino superior na China, numa edição que alia um controlo de segurança sem precedentes com sistemas inteligentes de vigilância e bloqueio a dispositivos eletrónicos. Pela primeira vez, as autoridades educacionais implementaram ferramentas de inteligência artificial para detetar tentativas de fraude com equipamentos de alta tecnologia, enquanto os candidatos enfrentam um ambiente de provas sob videovigilância e inspeções rigorosas. O concurso, considerado o mais difícil do mundo, continua a ser o principal critério de ingresso na universidade para a maioria dos jovens chineses, decorrendo ao longo de vários dias consoante a província e as disciplinas escolhidas.

Estrutura e cronograma do exame

As provas tiveram início a 7 de junho, seguindo o calendário tradicional do final do ano letivo chinês. O cronograma varia conforme a região e as matérias, sendo que o modelo mais comum é o “3+1+2”: uma componente comum composta por língua e literatura chinesa, matemática e uma língua estrangeira (inglês, japonês, francês, alemão, russo ou espanhol), mais uma área principal e duas disciplinas complementares das humanidades ou ciências da natureza. A pontuação final, que resulta de questões objetivas, discursivas e redações, situa-se normalmente entre 700 e 750 pontos, dependendo do sistema adotado por cada província. Este formato diversificado permite aos candidatos escolher áreas de especialização consoante os seus interesses e o percurso universitário pretendido.

Segundo ano de descida nas candidaturas

Em 2026, o Ministério da Educação registou cerca de 12,9 milhões de inscritos, uma redução de aproximadamente 450 mil candidatos face ao ano anterior – o segundo ano consecutivo de queda. Este decréscimo ocorre num contexto de redução da população adolescente em idade universitária, de uma migração crescente de jovens para cursos técnicos e profissionalizantes e das dificuldades económicas que o país atravessa. O desemprego entre os 16 e os 24 anos situa-se acima dos 16%, e cerca de 12,7 milhões de novos licenciados deverão entrar no mercado de trabalho este ano, o que aumenta a pressão sobre os recém-formados. Os candidatos, com idades entre os 17 e os 19 anos e a concluir o ensino secundário, enfrentam assim um panorama de oportunidades mais restrito do que em anos anteriores.

Tecnologia antivigilância e prevenção de fraudes

As autoridades educacionais ampliaram o uso de tecnologias de monitoramento e sistemas inteligentes para prevenir fraudes. Os locais de prova contam com vigilância por vídeo, inspeções rigorosas e sistemas de triagem capazes de detetar dispositivos eletrónicos proibidos, como telemóveis, relógios inteligentes e óculos inteligentes. O Ministério da Educação informou que está a utilizar ferramentas inteligentes para identificar tentativas de cola com equipamentos de alta tecnologia. Esta aposta na segurança visa garantir a credibilidade do exame, que continua a ser o principal mecanismo de seleção para o ensino superior chinês.

Inteligência artificial como tema de prova

Além do uso na vigilância, a inteligência artificial surgiu entre os temas da avaliação. Em Pequim, os candidatos tiveram de criar um slogan para uma atividade sobre IA destinada a idosos, enquanto em Xangai lhes foi pedida uma redação de 800 palavras sobre o impacto da tecnologia na transformação do mundo e da imaginação humana. Esta inclusão da IA no conteúdo do exame reflete a relevância crescente do tema na sociedade chinesa e a preocupação do sistema educativo em formar jovens preparados para os desafios tecnológicos. A presença do tema também demonstra como o próprio exame se adapta às tendências contemporâneas.

Evolução na perceção do gaokao

Especialistas observam uma mudança gradual na forma como as famílias e os candidatos encaram o exame. Nas últimas décadas, o rápido crescimento económico da China ampliou a valorização do ensino superior e aumentou as expectativas em torno do desempenho dos jovens. Contudo, perante um mercado de trabalho mais competitivo, muitos pais passaram a dar maior importância ao equilíbrio entre o desempenho académico, a saúde física e o bem-estar emocional. Apesar destas alterações, para milhões de estudantes o gaokao continua a ser uma etapa decisiva para o ingresso na universidade e para a construção de perspetivas profissionais.

O governo chinês afirmou que intensificará o combate a atividades ilegais relacionadas com o exame. Estas incluem esquemas de fraude, golpes e publicidade enganosa de serviços educacionais. As informações são da AFP, Reuters e RFI. A declaração insere-se no esforço geral de assegurar a integridade do processo seletivo.

A nossa análise — The Premise News: O gaokao não é apenas um vestibular; é um termómetro das transformações sociais e económicas da China. A redução de inscrições pelo segundo ano consecutivo revela um país onde o ensino superior já não é o único caminho para o sucesso – cursos técnicos e profissionalizantes ganham espaço à medida que o mercado de trabalho se torna mais apertado. A forte aposta em tecnologia antifraude expõe a tensão entre a massificação do exame e a necessidade de manter a sua credibilidade. O que está em jogo é a própria mobilidade social de milhões de jovens chineses, cada vez mais pressionados entre a tradição do concurso e a realidade de um mercado com desemprego juvenil elevado. A inclusão da inteligência artificial como tema de prova sugere que o sistema educativo já começa a refletir as exigências do futuro. Nos próximos dias, a divulgação das notas e a alocação das vagas universitárias mostrarão se a queda na procura pelo ensino superior tradicional se consolida. Este exame, que moldou gerações, enfrenta agora o desafio de se reinventar num contexto de rápidas mudanças demográficas e tecnológicas.

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