As novas ameaças comerciais do presidente americano Donald Trump ao Brasil, incluindo um tarifaço de 25% e a inclusão do Pix como prática abusiva, estão expondo a fragilidade do candidato Flávio Bolsonaro e podem dar a vitória ao presidente Lula em uma eleição que deve ser disputada "cabeça a cabeça", avaliam cientistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil. Para os analistas, o efeito eleitoral positivo para o petista tende a superar eventuais impactos econômicos negativos das medidas dos EUA. A investigação comercial concluída nesta segunda-feira (1/6) classificou práticas brasileiras como "irrazoáveis", e o documento propõe um novo tarifaço de 25% contra produtos nacionais. O Pix foi citado entre as práticas consideradas abusivas pelo governo americano, o que pode tornar o debate eleitoral ainda mais acessível à população.
A narrativa da soberania e o impacto eleitoral
Para a cientista política Denilde Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM, a conclusão da investigação comercial tem um lado negativo para o governo Lula, que vinha tentando manter um diálogo com Washington. "Do ponto de vista do governo, é uma medida ruim porque tem um impacto econômico num momento eleitoral", afirmou ela. No entanto, Holzhacker destacou o ganho político: "Do ponto de vista de campanha, o governo ganha novamente a força da narrativa da soberania, de um governo que enfrenta uma potência como os Estados Unidos, e que está buscando diálogo, mas o outro lado não busca." Dessa forma, Lula ganha força na opinião pública, segundo a especialista.
Flávio busca distanciamento, mas fragilidade é exposta
Pouco depois do anúncio da nova ameaça de tarifaço, Flávio tentou se distanciar da medida, publicando um vídeo nas redes sociais. No material, ele afirma ter pedido a Trump, ao vice-presidente J.D. Vance e ao secretário de Estado Marco Rubio que não taxassem produtos brasileiros. "Sempre defendi as empresas brasileiras e, em qualquer oportunidade que tiver, vou continuar a defender nosso setor produtivo. Pedi expressamente ao presidente Trump para não taxar nossas empresas. Tarifa não é solução", disse o candidato. Para Holzhacker, a postura de Flávio revela sua fragilidade: "Flávio sai numa posição em que, primeiro, fica parecendo que a capacidade dele de influenciar Trump não é tão grande assim." Ela acrescenta que o episódio dá munição ao PT e ao governo para afirmarem que o bolsonarista "não pensa nos interesses dos brasileiros, mas apenas no seu interesse de ganhar a eleição". Em discurso em Catalão (GO), Lula classificou os filhos de Bolsonaro como "vendilhões da pátria" e disse que foram "pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras".
Rejeição em alta e o eleitor antipetista
O cientista político Rafael Cortez, sócio da Tendências Consultoria, avalia que o relatório dos EUA desloca a agenda eleitoral da segurança pública para o comércio, movimento claramente positivo para Lula. Contudo, ele ressalva que isso não deve representar uma "grande revolução" no capital político do presidente. "Lula está muito próximo ao seu capital político máximo numa sociedade que, grosso modo, está dividida", afirma Cortez. Em sua visão, os elementos trazidos pelo tarifaço podem, no entanto, ser decisivos numa disputa já acirrada. O especialista observa que o novo tarifaço dificulta a tarefa de Flávio de conquistar o eleitor antipetista não convictamente bolsonarista, grupo essencial para uma vitória sobre Lula. "Para ganhar uma disputa eleitoral, a oposição precisa não só que o governo seja mal avaliado, mas que ela seja percebida como um porto seguro para esse eleitor descontente", explica.
Efeito Trump no mundo enfraquece conservadores
Cortez lembra que a associação com Trump tem gerado efeitos negativos para candidatos em diversas partes do mundo, enfraquecendo políticos conservadores em países como México, Canadá e Austrália. "Sempre que Trump mobilizou uma agenda bilateral, ele beneficiou candidatos de oposição, distantes do seu vínculo ideológico. Não faltam episódios de Trump gerar um efeito eleitoral de enfraquecimento dos conservadores", afirmou o analista. Esse contexto internacional torna ainda mais arriscada a estratégia de Flávio de buscar apoio explícito do presidente americano. A rejeição ao candidato bolsonarista, segundo Cortez, fica num patamar muito próximo ao de Lula quando ele mobiliza o eleitorado bolsonarista, afastando o eleitor cansado da polarização.
Caiado como alternativa na direita
O cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da FGV, aponta que a inclusão do Pix entre as ameaças americanas pode ser o elemento mais relevante para o debate eleitoral, dado o enorme alcance popular do meio de pagamento. "Por conta do Pix sobretudo, a população vai acompanhar esse debate enormemente, eu não tenho dúvida", afirmou. Teixeira observa que o desgaste de Flávio pode beneficiar não apenas Lula, mas também o candidato Ronaldo Caiado (PSD). Ele cita pesquisa Realtime BigData publicada na segunda-feira, que mostra Caiado como o adversário mais competitivo contra Lula num segundo turno, com empate de 43% das intenções de voto. A distância de Lula sobre Flávio é de cinco pontos (45% a 40%), e sobre Zema (PSD) é de três pontos (43% a 40%). "Isso pode significar que o teto de Caiado é maior [do que o de Flávio]", diz Teixeira.
O ex-governador de Goiás ainda precisa definir seu vice, com nomes como Gilberto Kassab (PSD) e a apresentadora Silvia Abravanel, filha de Silvio Santos, entre os cogitados, lembra Teixeira. Essa definição, combinada com notícias negativas sobre Flávio, pode ajudar a criar um momento favorável para Caiado, que já atrai o voto do agronegócio. "As próximas pesquisas vão dar o tom desse processo e vão dizer qual é a dimensão disso [a migração de votos entre os candidatos da direita]. Mas é muito difícil o Flávio não se desgastar mais", conclui o professor. O cenário, portanto, aponta para uma eleição ainda indefinida, mas com Lula mantendo ligeiro favoritismo diante do enfraquecimento de seu principal adversário.
